terça-feira, 26 de março de 2019

Por que tantas estátuas egípcias têm o nariz quebrado?


Face of Senwosret III, ca. 1878–1840 B.C. Courtesy of The Metropolitan Museum of Art.Statue of Amenemhat III, c. 1859–1814 C.C. Courtesy of the Cleveland Museum of Art.
A pergunta mais comum que o curador Edward Bleiberg recebe de visitantes do Museu de Arte Egípcia do Brooklyn é uma direta, porém incômoda: Por que os narizes das estátuas estão quebrados? Bleiberg, que supervisiona a extensa coleção de arte Egípcia, Clássica e Oriente Médio do museu, foi surpreendido nas primeiras vezes em que ouviu esta pergunta. Ele tinha a certeza que as esculturas estavam danificadas; seu treinamento em egiptologia o encorajava a visualizar como uma estátua pareceria se ainda estivesse intacta. Parecia inevitável que após milhares de anos, um artefato tão antigo mostrasse todos os detalhes. Mas esta simples observação levou Bleiberg a descobrir uma abrangente teia de destruição deliberada, que aponta para uma complexa gama de razões por que a maioria dos trabalhos de arte egípcios foram desfigurados em primeiro lugar.
A pesquisa de Bleiberg é agora a base da contundente exibição “Poder Notável: Iconoclastia no Egito Antigo. ” Uma seleção de objetos da coleção do Museu do Brooklyn viajará para a Fundação de Arte Pulitzer no fim deste mês sob a co-direção da curadora associada Stephanie Weissberg. Expondo lado a lado, estátuas danificadas e altos-relevos, datados do século XXV a.C ao século I d.C, junto a uma cópia intacta, a mostra testifica a função política e religiosa dos artefatos egípcios – e a arraigada cultura iconoclasta que levou à sua mutilação.
Em nossa própria era, onde reconhecemos nos monumentos nacionais e outras demonstrações de arte, “Poder Notável” acrescenta uma relevante dimensão ao nosso entendimento de uma das mais antigas e duradouras civilizações do mundo, cuja cultura visual, em grande parte, manteve-se imutável pelos milênios. Esta continuidade estilística reflete – e diretamente contribui para – os longos períodos de estabilidade do império. Porém, invasões de forças externas, questões de poder entre soberanos das dinastias, e outros períodos de turbulência deixaram suas cicatrizes.

Bust of an Official, 380–342 B.C. Courtesy of The Metropolitan Museum of Art.Amunhotep, Son of Nebiry, ca. 1426–00 B.C.E. Courtesy of the Brooklyn Museum.

“A consistência dos padrões onde os danos foram encontrados nas esculturas, sugere que foram propositais”, disse Bleiberg, citando diversas motivações políticas, religiosas, pessoais e criminosas para os atos de vandalismo. Para discernir a diferença entre danos acidentais e vandalismo deliberado foi necessário reconhecer tais padrões. Um nariz protuberante numa estátua tridimensional é facilmente quebrável, ele admite, mas a situação não é tão simples quando peças planas também ostentam narizes quebrados
Os antigos egípcios, é importante ressaltar, imputavam grandes poderes a imagens da forma humana. Eles acreditavam que a essência de uma deidade poderia habitar uma imagem daquela deidade, ou, no caso de meros mortais, parte da alma daquele ser humano poderia habitar uma estátua nomeada para aquela pessoa em particular. Essas campanhas de vandalismo tinham a intenção de “desativar o poder de uma imagem”, como Bleiberg enfatizou.
Tumbas e templos eram repositórios para a maioria das esculturas e imagens planas que tinham propósito ritualístico. “Todas elas têm a ver com o recurso de oferendas ao sobrenatural”, disse Bleiberg. Numa tumba, eles serviam para “alimentar” a pessoa representada no próximo mundo com presentes e comida do nosso mundo.  Nos templos, as representações dos deuses são expostas recebendo oferendas de representações de reis e outros nobres capazes de se responsabilizar por uma estátua.  

Stela of Setju, ca. 2500–2350 B.C.E. Courtesy of the Brooklyn Museum.

“A religião estatal egípcia”, explicou Bleiberg, era vista como “um arranjo onde reis na Terra proviam para a deidade, e em troca, a deidade cuida do Egito”. Estátuas e afins eram um “ponto de contato entre o sobrenatural e este mundo”, ele disse, apenas habitadas ou “revividas”, quando o ritual é performado. E atos de iconoclastia poderia interromper este poder.
“A parte danificada do corpo não é mais capaz de realizar este trabalho”, Bleiberg explicou. Sem o nariz, a estátua-espírito deixa de respirar, então o vândalo está efetivamente, matando-a. Marretar as orelhas a tornaria incapaz de ouvir orações. Em estátuas que pretendem representar seres humanos fazendo oferendas a deuses, o braço esquerdo – mais comumente usado para fazer ofertas – está cortado, então a função da estátua não pode ser cumprida (a mão direita está constantemente amputada em estátuas recebendo oferendas).
“No período faraônico havia um claro entendimento do que uma escultura deveria fazer”, disse Bleiberg. Até um ladrão de tumbas comum era mais interessado em roubar os objetos preciosos, ele também estava preocupado que a pessoa representada poderia se vingar se sua representação não estivesse mutilada.
A prática principal de danificar imagens da forma humana – e a comoção acerca da profanação – data do início da história egípcia. Múmias intencionalmente danificadas do período pré-histórico, por exemplo, falam de uma “crença cultural muito básica que danificar a imagem, danifica a pessoa representada”, disse Beliberg. De maneira parecida, manuais em hieróglifos continham instruções para guerreiros prestes a entrar em batalhas: construir uma imagem em cera do inimigo e então, destruí-las. Muitos textos descrevem o temor de ter sua própria imagem danificada, e faraós frequentemente decretavam terríveis punições para qualquer um que ousasse ameaçar suas representações.
Na verdade, “Iconoclastia numa grande escala... era primariamente política em suas razões,” Bleiberg escreve na exibição catalogada em “Poder Notável”. Desfigurar estátuas que representavam soberanos ambiciosos (e candidatos a soberanos), reescrevendo a história a seu favor. Através dos séculos essa eliminação constantemente ocorreu por linhas de gênero: os legados de duas poderosas rainhas egípcias, de quem a autoridade e misticismo alimentam a imaginação cultural – Hatshepsut e Nefertiti – foram largamente apagadas da cultura visual.
“O reinado de Hatshepsut apresentou um problema para a legitimidade do sucessor de  Thutmose III, e Thutmose resolveu este problema virtualmente eliminando toda memória em imagem e escrita de Hatshepsut,” Bleiberg escreve. O marido de Nefertiti, Akhenaten trouxe uma rara mudança estilística para a arte egípcia no período Amarna (1353 – 36 a.C) durante sua revolução religiosa. As sucessivas rebeliões forjadas por seu filho Tutankhamun e sua casta incluíram a antiquíssima veneração ao deus Amon; “a destruição dos monumentos a Akhentaten foi, portanto, completa e efetiva,” Bleiberg escreve. Nefertiti e suas filhas também sofreram, estes atos de iconoclastia obscureceram muitos detalhes de seus reinados.
Antigos egípcios tomaram providências para resguardar suas esculturas. Estátuas eram guardadas em nichos nas tumbas ou templos para protege-los em três lados. Eles estariam seguros atrás de um muro, seus olhos alinhados com dois buracos diante dos quais um sacerdote faria suas oferendas. “Eles faziam o que podiam,” disse Bleiberg. “Realmente não funcionou tão bem”.
Falando sobre a inutilidade dessas medidas, Bleiberg observou a aptidão evidente dos iconoclastas. “Eles não eram vândalos,” ele esclarece. “Eles não estavam desleixada e aleatoriamente destruindo obras de arte”. De fato, a precisão de seus formões sugere que eram profissionais especializados, treinados e contratados para este exato propósito. “Frequentemente no período faraônico,” disse Bleiberg, “era realmente somente o nome da pessoa visada na inscrição. Isso significa que a pessoa realizando o dano sabia ler! ”
O entendimento dessas estátuas mudou do decorrer do tempo, enquanto os costumes culturais mudaram. No início da era Cristã no Egito, entre os séculos I e III d.C, os deuses habitantes das esculturas eram temidos como demônios pagãos; para desmantelar o paganismo, suas ferramentas ritualísticas – especialmente estátuas fazendo oferendas – foram atacadas. Após a invasão muçulmana no século VII, supostamente, os egípcios perderam o medo desses antigos objetos de ritual. Durante este tempo, estátuas de pedra eram regularmente cortadas em retângulos e usadas em projetos de construção.
 “Templos antigos eram de alguma maneira vistos como pedreiras", Bleiberg disse, nada daquilo “quando você anda pelo Cairo medieval, você pode ver muito mais objetos egípcios antigos em um muro. ”
Tal prática, vista como ultrajante para ouvidos modernos, considerando nossa apreciação pela cultura egípcia e seus artefatos como trabalhos de mestre de fina arte, mas Bleiberg em apontar que os “antigos egípcios não tinham uma palavra para ‘arte’. Eles teriam se referido a esses objetos como ‘equipamento' ". Quando falamos sobre estes artefatos como trabalhos de arte, ele disse, nós os descontextualizamos. Além disso, essas ideias sobre o poder das imagens não eram peculiares no mundo antigo, ele observa, referindo-se à nossa própria era de preservação do patrimônio culturas e monumentos públicos.
“Imagens em espaço público é um reflexo de quem tem o poder de contar a história do que aconteceu e o que deve ser lembrado, ” Bleiberg disse. “Nós estamos testemunhando o fortalecimento de muitos grupos de pessoas com diferentes opiniões a respeito do que é uma narrativa apropriada. ” Talvez possamos aprender com os faraós; como nós escolhemos reescrever nossas histórias nacionais poderia apenas conter alguns fatos de iconoclastia.


sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Perna Roxa

                                         Conto baseado num dos causos contados pelo meu mineiríssimo avô, Ovídio, para os netos, durante noites escuras e chuvosas. 


Era dia de finados. Todo mundo sabe que não se deve trabalhar nesse dia. Isso enfurece as almas. É o momento de prestar homenagens aos mortos. Ela nunca ligou para nada disso.

Ainda lembro da cabeça loira passando pela porta, tanto tempo atrás. Ele a trouxe, ainda com jeito de menina, vacilante e assustada nesse mundo novo. Falava pouco, lia muito. Era uma moça valorosa, cuidava da casa, entrava e saía, sempre muito apressada. Mulher pequena e esperta, não temia nada e não se dobrava a ninguém. Tinha vindo de longe e nunca fez questão de se misturar. Sacudia a cabeça quando ele tentava convencê-la a ser mais parecida com as esposas daqui. Ele perdia os cabelos e ganhava peso. A cabeça loura dela foi dando lugar a um tom mais prateado, mas a força dela nunca esmaeceu. Nem quando ele caiu no meio da sala um dia e nunca mais voltou a passar por aquela porta. Pelo contrário, a viúva, trabalhava com ainda mais energia e eventualmente até cantava durante as
tarefas.

Não demorou para a prosperidade ficar obvia e visível. A casa foi ficando mais bonita, do lado de fora, rebanhos cresceram, máquinas novas, o pomar mais frondoso, muitos empregados recém chegados. A fazenda foi se tornando viçosa e ela, cada vez mais destemida. Era comum ver homens poderosos vindo pedir-lhe favores e conselhos, que ela dava sem pestanejar, impaciente, autoritária e apressada. Alguns pretendentes se aproximaram, mas foram escorraçados sem nenhuma simpatia. Ela gostava de viver só e ser quem era.
A gente daqui sempre respeitou as tradições. De oferendas às aparições, rezas nos dias certos, jejum em momentos esperados, novenas e procissões, resguardo de trabalho quando tinha que ser. Ensinavam às crianças e passavam o costume de geração em geração. Ela, não. Revirava os olhos e ria condescendente quando Joana, a vizinha e única amiga íntima, já nos seus anos de declínio, a alertava para as tradições.
– Quando tiver tempo, eu faço, prometo. Por enquanto, você faz por nós duas. – respondia à amiga, brava pela teimosia.

A noite passou ligeira, as onze badaladas reverberaram no relógio de pêndulo, encostado na parede da sala. Era herança da mãe do falecido. Algumas vezes dava a impressão de que fazia careta para a peça. Talvez dirigisse a ele todo o desgosto direcionado à insuportável família do marido. Papéis espalhados deixavam claro que ela estava ali desde cedo, organizando contas, tabelas, mapas de propriedade, contrato de compra da fazenda de um vizinho. Ninguém além dela na casa, silêncio quebrado apenas pelos mugidos das vacas e mudanças nos ponteiros do relógio, o vento e a tempestade lá fora. A escuridão, amenizada apenas pela luz fraca de um lampião, tomava conta de tudo. A chuva levou a eletricidade embora, e a companhia só viria no dia seguinte. Ninguém faria nada naquele dia. Ela continuava fazendo as anotações, conferindo números, fazendo contas. Não havia parado nem para almoçar. As batidas fortes na porta dos fundos estremeceram até as telhas. Ela ficou quieta, talvez esperando a visita inconveniente ir embora. Uma segunda batida e a voz conhecida lá de fora.

– Rosa, trouxe seu jantar! - a voz da amiga a obrigou a se levantar. - Não precisa abrir. Deixei o pernil lá em cima do fogão. Já vou embora que a chuva está engrossando de novo. 

Rosa agradeceu e sentou-se de volta na cadeira. Prosseguiu trabalhando. Esticou-se na cadeira e percebeu que estava com fome.  Pensou em ir até a cozinha comer o que a vizinha trouxera. Eram amigas há tempos, a outra estava doente e ela sentiu uma certa culpa por receber o jantar ao invés de ir até lá, levar uma refeição para Joana, a amiga que vivia sozinha desde a viuvez. Prometeu a si mesma ser mais dedicada no futuro. Afinal, eram as vizinhas mais próximas e ambas eram sós. Deveria ter mais cuidado e prestar mais atenção à amiga.

As doze badaladas bateram enquanto chegava à entrada da cozinha. Viu a forma enorme e repreendeu Joana mentalmente. Para que aquele exagero para uma pessoa só? Mais dois passos e descobriu o volume sobre a cauda do fogão de lenha. Piscou repetidas vezes tentando assimilar o choque. Não era o pernil. Era uma perna humana, feminina e roxa, onde larvas de varejeira passeavam tranquilamente. O cheiro contundente atingiu o nariz no mesmo momento em que a porta  se abriu com um rangido agourento. O corpo gordo e careca do marido, já mutilado pela decomposição, seguido de outros cadáveres de homens, mulheres e crianças invadiam sua cozinha em passos trôpegos, enchendo o ambiente com gemidos, cheiro de carne podre e pedaços humanos que insistiam em se desgrudar de seus donos. A última coisa que Rosa conseguiu ver, foi a horda se aproximando e ferindo suas vivas carnes com dentes e unhas.

Na manhã seguinte, o capataz encontrou uma grande poça de sangue e vísceras, além da perna podre numa travessa e marcas de terra por toda a cozinha. Na casa de Joana, encontraram seu cadáver, morta por um infarto na manhã do dia de finados, com uma perna faltando.

Ninguém mais teve notícias de Rosa, nenhum corpo foi encontrado e não havia herdeiros. A fazenda foi dividida pelos funcionários e, ninguém mais queria morar na casa, que foi demolida para construir um grande celeiro no lugar do que já foi o grande orgulho daquela mulher tão desafiadora. Depois de Rosa, nunca mais, ninguém naquela região, ousou trabalhar no dia dos mortos.






terça-feira, 19 de junho de 2018

Crônica - Corrida, amigos e felicidade



Sim, eu acordei às 5:50 da manhã. Num domingo. Para correr. De propósito. Qualquer um que me conheça um pouquinho sabe o absurdo de cada termo dessa afirmação. Mil vezes ler um livro de 500 páginas a correr 500 metros. Como, então, aconteceu algo assim?
Uns dois meses atrás, uma amiga fitness veio com a ideia: “vamos nos inscrever numa corrida?”. O que poderia dar errado? Em meio a risadas, topamos. Uma amiguinha mais orgulhosamente sedentária que eu, uma menina meiga que pretendia melhorar o condicionamento, a irmã da amiga fitness, mais fitness que ela e eu, que sempre preferia qualquer outra matéria a educação física e geralmente era dispensada da aula para fazer pesquisa teórica sobre os esportes. Para completar, a síndrome do vaso vagal me impede de esforços físicos extremos desde sempre. Posso dizer que a bendita síndrome é uma das principais responsáveis pela minha relação com os livros, então, não tenho absolutamente nada contra ela.
Por que eu topei? Porque adoro as meninas e não seria estraga-prazeres, além de estar precisando fazer as pazes com o corpo. Não é exagero quando dizem que tudo muda depois dos 35. Logo depois da inscrição, compromisso de treinar e toca a fazer o que? Assistir vídeos de corrida no YouTube.
Numa mudança de trabalho, meu contato com a equipe ficou limitado ao nosso incrível grupo de Whatsapp e meu tempo e disposição para os treinos diminuíram até desaparecerem para sempre. 
Três dias antes da corrida, resolvi treinar e percebi um zumbido desagradável no ouvido, ainda assim, consegui correr/caminhar os 5km. Mantive o treino secreto no Strava porque o tempo foi constrangedor, embora melhor do que esperava. No dia seguinte, a garganta amanheceu dolorida e o corpo pedia cama. Tomei um anti-inflamatório e dei uma maneirada, mas ainda joguei queimada com o time da minha prima à noite. Parei logo que o frio da noite incomodou e vivi normalmente o sábado. Dormi cedo como um atleta tem que fazer e quando o celular despertou, tive certeza que era uma pegadinha. Eram 6:20 quando saí de casa, quase sem voz e sem cor, amaldiçoando o dia em que topei esse despropósito. Para começar, havia outros carros na rua. Quem, em sã consciência, sai de casa antes das 7 num domingo frio? O que essas pessoas têm na cabeça? Nem acreditei quando entrei na fila para largar, “azamiga” não paravam de rir da minha cara de quem ia para a forca. A uns 600 metros, a amiga fitness, o pai da amiga sedentária – que substituiu a irmã da amiga fitness - e a menina que queria condicionamento, sumiram, deixando as duas sedentárias para trás. A quase incapacidade de respirar diminuiu meu ritmo consideravelmente e pude fazer uma das coisas que mais gosto na vida: observar as pessoas quando elas pensam que não tem ninguém olhando. Senhoras felizes só por estarem ali, um casal muito fofo de namorados adolescentes, corredores contumazes, famílias e casais. Cada um tinha seu motivo para encarar aquela doideira e todos pareciam satisfeitos de maneira pouco usual. Naquela manhã fria de domingo, cada um dando seu melhor, pude ver uma felicidade que não vejo em outros ambientes. O porquê, só posso supor. Pode ser que tenhamos sido feitos para superar desafios e que nada seja mais humano que buscar os seus limites, pode ser que focar num objetivo sem competir com ninguém seja uma receita de felicidade, ou que seja só a descarga de serotonina, mas fazia muito tempo que não via tanta gente alegre num mesmo ambiente.


Cruzamos a linha de chegada e passamos muitos minutos procurando o resto da equipe, que nos abandonara pelo caminho e nem isso tirou o bom humor de ninguém. Muitas selfies por todos os lados e sorrisos espontâneos onde quer que olhasse. Algumas lições ficaram:
1.       Não dá para treinar de véspera. Ao contrário do que acontecia na escola, se quiser um bom resultado, vou precisar de disciplina;
2.       A alegria é simples. Amigos, tênis e um objetivo podem ser o suficiente;
3.       Exercício cura gripe. À exceção de uma rouquidão, estou ótima;
4.    Se precisar de uma parceira em batalha, escolho a amiga sedentária. As outras deixaram a soldada ferida para trás;
5.       Ninguém me leva a sério. 100% dos comentários na foto postada nas redes são de descrença;
6.       Acho que gosto de correr. Amanhã pretendo começar um treino decente.

domingo, 17 de junho de 2018

Resenha - Linha Amarela 4


Resenha – Linha Amarela 4
Autor – Felipe S. Mendes
Ano de Publicação - 2018
Páginas - 162
Publicação independente
Sinopse: Um ataque terrorista no horário de rush no Metrô mais lotado da América deixa mais de 7 mil pessoas presas e soterradas a mais de 55 metros de profundidade!!

Agora imagine se a sua vida e de seus amigos dependessem da honestidade e rapidez do sistema político brasileiro!!!

Linha 4 Amarela é um livro extremamente diferente de qualquer outro que você já leu ou ouviu falar.

O grupo denominado SETE explode 7 bombas implantadas em drones em todas as saídas das Estações Paulista e Consolação do Metrô, o local onde no horário de pico passam mais de 240 mil pessoas por dia.

Após a explosão um vídeo na internet revela que eles têm exigências que devem ser cumpridas nas próximas 7 horas.

Se a cada hora uma exigência não for cumprida eles vão explodir as outras 7 bombas que estrategicamente estão infiltradas entre as vítimas do ataque.

O grupo SETE fere diretamente os 3 poderes, o que causa uma ambiguidade no público, pois o que os terroristas pedem são coisas que toda a população deseja, porém, seus métodos são extremamente peculiares.

Dentro da trama temos de um lado a população e pessoas “comuns”, de outro toda a intriga entre os políticos, principalmente entre Prefeito, Governador e Presidente e ainda a Agência Brasileira de Inteligência que tem um papel duplo, de defesa da segurança nacional sem expor os conluios por trás disso.
Em jogo além do funcionamento da maior metrópole da américa latina estão ainda o jogo político e a vida de milhares de pessoas. Exatamente nessa ordem.


O romance de Felipe S. Mendes está prestes a ser lançado e se revelou uma obra intrigante desde as primeiras páginas. As histórias se apresentam paralelas nos primeiros capítulos e vão se cruzando no decorrer da história, numa narrativa ágil e envolvente, em especial para o leitor sedento de ação e teorias conspiratórias. Temos personagens peculiares que despertam antipatia, simpatia e curiosidade (destaque para Max, o filho do governador que me fez ressuscitar a psicologia da minha avó e aplicar umas boas chineladas no mimadão). Nisso, o autor cumpriu sua missão e mantém o leitor interessado do começo ao fim, nem que seja só para ver onde aquilo vai dar.
O enredo é, obviamente, jovem e traz aquela ingenuidade de quem pensa que pode mudar o mundo movendo algumas peças do tabuleiro (ou explodindo algumas bombas). O posicionamento político do autor fica óbvio em trocadilhos de nomes conhecidos da mídia, o que não chega a comprometer a qualidade do trabalho, embora acenda a luz amarela num leitor mais maduro.
A obra atrai o jovem acostumado a thrillers de cinema e literatura e entretém, enquanto passa o recado e conta uma história que tem fôlego para outros volumes e, com certeza, vale a compra e a leitura.

Em pré venda na Amazon pelo link https://www.amazon.nl/dp/B07D2ZV8TF

terça-feira, 1 de maio de 2018

Resenha - Livrinho da Silva


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Resenha – Livrinho da Silva
Autor – Aldenor Pimentel
Ano de Publicação - 2017
Páginas - 72
Editora Catarse

Livrinho da Silva é uma coletânea de histórias que têm como tema o livro e as mudanças que ele tem a capacidade de operar na sociedade.

A obra pode enganar à primeira vista, um leitor desatento. A simplicidade do enredo e da linguagem escondem as conclusões profundas do fio que conduz todas as histórias contadas ali: a realidade modificada pelo poder dos livros e das palavras.

 Aldenor Pimentel traz a leveza que só é permitida a quem tem segurança sobre o que está dizendo. Cita a história de uma lavadeira ou de um catador de material reciclável em meio a grandes pensadores sem que um ofusque o outro, pelo contrário, complementam-se numa harmonia inteligente e delicada. Tem a sabedoria de expressar grandes questionamentos de uma maneira acessível a qualquer leitor, mesmo que nunca tenha aberto outro livro na vida.

 A ironia inteligente transforma a leitura num deleite irresistível, que concluí em menos de uma tarde, incapaz de parar antes de sua conclusão. O autor consegue um equilíbrio raro: uma obra significativa e profunda, despretensiosa e divertida. Brinca com paradigmas filosóficos e ri dos pequenos delírios de auto importância todos nós.


Natural de Boa Vista (RR), Aldenor Pimentel é jornalista e escritor. Em 2018, teve o romance Eldorado de Brisa selecionado para publicação em edital do Governo de Roraima. Foi o primeiro colocado no 5º Prêmio Literário Sérgio Farina, categoria Prata da Casa, da Prefeitura de São Leopoldo (RS), além de ter recebido outros 30 prêmios em concursos literários nacionais e internacionais. É autor das obras Deus para Presidência (2015) e Livrinho da Silva (2017). Fundador do coletivo Galera da Prosa, organiza desde 2016 o Concurso Literário Internacional Palavradeiros.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Resenha - A anatomia de uma dor

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Resenha – A anatomia de uma dor
Autor: C.S. Lewis
91 páginas
Lançamento: 1961
Sinopse: Neste relato tocante, C. S. Lewis mostra seu lado sombrio e amargo, até então desconhecido dos leitores. Apesar de ter escrito anteriormente sobre o sofrimento, é neste livro pungente que suas emoções são colocadas à mostra. Com grande intensidade e sofrimento, o escritor revela seu sentimento de indignação após a perda de sua amada. Até descobrir algo... Deus certamente não estava fazendo uma experiência com minha fé nem com meu amor para provar sua qualidade. Ele já os conhecia muito bem. Eu é que não. Nesse julgamento, ele nos faz ocupar o banco dos réus, o banco das testemunhas e o assento do juiz de uma só vez. Ele sempre soube que meu templo era um castelo de cartas. A única forma de fazer-me compreender o fato foi colocá-lo abaixo.


Esse livro me foi recomendado ano passado, numa sessão de aconselhamento. Sendo fã de Lewis, tinha certeza que o material valeria a pena.
A primeira edição foi lançada sob o pseudônimo N. W. Clerk, o que vai se tornando cada vez mais compreensível a cada página lida. Nesse ensaio, Lewis expõe o nervo latejante de sua dor e tudo o que a acompanha. Crises de fé, medos nem sempre tão óbvios, altos e baixos, confissão das pequenas hipocrisias a busca por conforto e um sentido numa dor tão lancinante. É tão cruel que realmente fica difícil enxergar naquelas páginas o criador de Nárnia ou o cristão amoroso de Cristianismo Puro e Simples. À primeira vista, o encanto parece ter dado lugar a uma lamentação sofrida e tão íntima que chega a causar um certo constrangimento. É como se ele tivesse deixado a porta do quarto mal fechada e desse a chance do leitor observar sua intimidade mais secreta.
Lewis foi extremamente feliz em escolher o formato do texto. Enquanto desvenda a própria perda, ajuda o leitor a assimilar as próprias. Nada de cinco fases do luto, ele consegue traduzir essa dança em espiral que avança e retrocede em busca de redesenhar a vida e reencontrar o verdadeiro sentido dela. A imagem do castelo de cartas sendo derrubado para voltar a ser construído remeteu a Eustáquio tentando se livrar da couraça do dragão e só conseguindo com a ajuda dolorosa de Aslam. Ninguém vai encontrar respostas fáceis nessa obra, aliás, muitas perguntas sequer as têm. O foco é o processo, reconstruir a fé e voltar a enxergar o mundo, não com os mesmos olhos de antes (ele repudia essa ideia com verdadeiro pavor), mas com uma nova perspectiva, ciente que a memória de quem se foi sempre vai acompanhar, às vezes trazendo sofrimento, às vezes não.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Resenha - Via Mátrea

Resultado de imagem para via matrea livroAutor: Paulo F. Diaz
Editor: Fernando Cardoso
Ano de publicação: 2017
134 páginas

SinopseZahra está destruída por dentro desde que seu noivo, Adeel, foi morto, há 20 anos, na primeira e única invasão alienígena já vista em uma colônia de Sion, seu planeta natal. Arrasta seus dias entre lamúrias e lembranças dolorosas, enquanto tenta ser uma boa capitã para a Enir-7, uma das mais velhas naves de transporte da Força Aérea Siônica.

Está há 1 dia de deixar a corporação quando é designada a atender um último chamado de socorro em uma misteriosa lua vermelha nos confins do sistema solar.

Haveria mesmo um sobrevivente em Luctéria?
Envolva-se nessa trama de mistério, viagem estelar, ciência e amores impossíveis. A lua de sangue pode guardar grandes segredos... é só procurar no lugar certo



Zahra é a brilhante comandante de uma nave comercial interplanetária e está prestes a se aposentar de uma carreira que pouco a empolgava. Tendo perdido o noivo numa missão às vésperas do casamento, 20 anos antes, a mulher se transformou numa pessoa amarga e intratável e isso é mostrado logo nas primeiras falas, porém, a personagem vai muito além disso e é dado ao leitor conhecê-la melhor pouco a pouco a cada passagem. Na última viagem, um sinal vindo de um planeta inabitado obriga a tripulação a um desvio não previsto. A partir daí, Paulo Diaz nos guia por uma aventura cheia de mistério, descobertas, saltos interdimensionais e grandes personagens cheios de nuances e contradições difíceis de encontrar na obra de um autor iniciante, que envolvem o leitor e constroem uma leitura fluida, que agrada desde o leitor de sci-fi até quem não costuma curtir tramas desenvolvidas no espaço sideral. As sequências de ação foram descritas com a classe de quem sabe realmente o que está fazendo, deixando claro que o autor fez o dever de casa e bebeu em boas fontes de inspiração que vão muito além de Star Trek. Espero ansiosa pela continuação.